No âmbito dos Jardins Efémeros, foi-me feito o convite para conceber uma instalação para a Funerária D. Duarte.
Na primeira visita, o espaço intimidou, por toda a carga simbólica que lhe está associada, mas também pelo próprio espaço físico com todos os elementos que compõem a cerimónia que encerra um capítulo, uma vida.
Desde então, quis que a instalação fosse sendo construída até ao dia da montagem. Passo a passo. Os dois meses seguintes fizeram-se de várias etapas e todos os dias o trabalho feito era também uma forma de prestar o meu respeito sobre e para quem o fazia.
Formalmente optei pelos caleidociclos, círculos tridimensionais formados por tetraedros que por sua vez são formados por triângulos equiláteros. Estes sólidos podem ser girados infinitamente, mostrando sempre um lado/forma diferente, ciclo contínuo que em muito se assemelha à vida. Estas formas geométricas são a base da instalação.
E por querer falar mais da vida que da morte, pedi a pessoas amigas e conhecidas para partilharem pedaços da vida de alguém que os deixou: um conselho, uma frase, um conto que os lembra, uma fotografia. São esses os legados que estão inscritos nos caleidociclos, estendidos no gesto primordial da partilha e aqui expostos para imortalizar quem os inspirou.
A quem o desejar, pode partilhar o também o seu legado, deixando-o aqui como comentário, identificado ou não.

Ana Seia de Matos
"Hoje quero construir os gestos
Que ainda não habituámos a consentir
Porque
Somos ambos possuídos de sílabas
Ainda inexistentes
É como se as minhas mãos traçassem geometricamente
As coordenadas que prolongam o hábito
Dos meus olhos te realizarem na minha frente
Precisamente sentada na cadeira em frente.
Poderia, no eixo das abcissas
Marcar a distância que nos separa das palavras
E no das ordenadas
Marcar as imagens
Que pretendemos povoar
Quando as raízes se desenvolvem pelas tardes.
Traçaríamos a curva da variação
Mas sem limites
Ou então
Até esse ponto onde as pessoas acreditam
Que afinal
Não é preciso matemática, nem geografia
Para se amarem:
Hoje poderias estar na minha frente
Do outro lado da mesa
(Para quê a mesa
Se ambos detestamos fronteiras?)
E olhar-mo-nos
Indefinidamente
Até estrangularmos os relógios
Nas caras das mulheres que reparassem em nós
Depois soprava-te os olhos
Cantaria para ti um poema
Onde não coubessem crianças nem lírios
E em seguida
Inventava um rio
Que se dissolvesse nos nossos corpos
E nos levasse até ao mar:
(Mas afinal que faço eu
Sentado aqui sozinho à mesa?)"

Partilhado anonimamente.
"Entre o pranto da tua ausência a rua era a mesma, mas os abraços duplicavam-se. Éramos todos família."

Partilhado por Luís Belo.

Partilhado por beamoria.tumblr.com
"encontro-te,
sempre..
entre as flores e as arvores, nas estrelas e no infinito do céu
encontro-te,
sempre..
nas noites de trovoada, nas manhãs de orvalho e na sombra do pátio
encontro-te,
sempre..
na malga do café, entre os gomos da laranja e das historias
encontro-te,
sempre..
nas anedotas du bocage, na tua mão apoiada no meu ombro e no teu sorriso
encontro-te,
sempre..
naquela paz inefável de ser, tão tua, de quando há amor!"

Partilhado por Lurdes Martins.
"'Sê um bom Homem', disse-me em pequeno. Ficou a frase e a esperança de cumprir o pedido que nunca soou a ordem."

Partilhado anonimamente.
"Death is nothing at all
I have only slipped away into the next room
I am I and you are you
Whatever we were to each other
That we are still
Call me by my old familiar name
Speak to me in the easy way you always used
Put no difference into your tone
Wear no forced air of solemnity or sorrow
Laugh as we always laughed
At the little jokes we always enjoyed together
Play, smile, think of me, pray for me
Let my name be ever the household word that it always was
Let it be spoken without effort
Without the ghost of a shadow in it
Life means all that it ever meant
It is the same as it ever was
There is absolute unbroken continuity
What is death but a negligible accident?
Why should I be out of mind
Because I am out of sight?
I am waiting for you for an interval
Somewhere very near
Just around the corner
All is well.
Nothing is past; nothing is lost
One brief moment and all will be as it was before
How we shall laugh at the trouble of parting when we meet again!"

Canon Henry Scott-Holland, 1847-1918, Canon of St Paul's Cathedral.
Partilhado por Ana Macário.
"The way we talked to each other
The way we tried not to bother
The way that you came undone
You were my black sun

The way you waited for me
The way you made me believe
The way we had so much fun
You were my black sun

Hallucinated eyes
Quick as a gun
A part of me dies
With you my Black Sun"

Black Sun, música dos Birds Are Indie (Joana e Jerónimo) e por eles partilhada.
LOVE ONCE IT HAS BEEN GIVEN HAS NO END

Partilhado Anonimamente.
"Assim de repente o quero partilhar contigo é o facto de o meu bisavô ter sido coveiro e a minha bisavó parteira."

Partilhado por Nuno Veiga.

Partilhado por beamoria.tumblr.com
" O homem dobrou o tronco, apanhou uma folha do chão e ergueu-a em frente aos olhos. Observou-a por um momento e sorriu. Um sorriso aberto, franco, como se visse na folha algo de extraordinário, algo que o fazia imensamente feliz. Ao fim de uns minutos, deixou-a cair, baixou-se e apanhou outra. Voltou a sorrir. Havia meia hora que eu observava esta peculiar rotina. Talvez fosse um biólogo ou algum estudioso da natureza mas a verdade é que a sua indumentária sugeria... outra coisa.
Era negro, embora a pele não fosse muito escura; talvez fosse mulato, ou talvez nem fosse africano. Tinha uma barba comprida e um cabelo enorme, todo encarapinhado, que não devia ter visto a água desde o dilúvio original. A testa estava cingida por um lenço de cor incerta do qual o cabelo emergia em cascatas lembrando uma palmeira. Para cobrir o corpo, apenas umas calças pretas cobertas de nódoas e uma gabardina rasgada. Os pés desapareciam numa confusão de tiras de tecido, cordéis e fita isoladora.
Estávamos os dois num jardim público à sombra de um plátano, se não milenar, certamente secular; ele sentado num banco, eu noutro do lado oposto; ele a brincar com as folhas, eu a tentar ler um livro. Gosto de vir aqui. É um jardim pequeno, meia dúzia de bancos de madeira, muitas árvores diferentes; mas, principalmente, fica a dois passos da universidade onde lecciono, o que me permite aproveitar os intervalos entre as aulas para saborear um pouco de paz e pôr as leituras em dia.
Só que hoje não conseguia passar da mesma página. Tentava fixar os olhos no livro e eles acabavam por derivar para o homem. Não era tanto o que ele fazia com as folhas, era sobretudo a sua expressão que me fascinava; uma expressão radiante, como uma criança que descobre um brinquedo novo. Acabei por encolher os ombros. Mais um pobre coitado que anda a arrastar a sua miséria pelos bancos dos jardins. Uns falam sozinhos, outros com os postes, este brinca com as folhas."


Texto de Yves Robert. Partilhado por Ana Macário.
"É o teu rosto que encontro. Contra nós, cresce a manhã, o dia, cresce uma luz fina. Olho-te nos olhos. Sim, quero que saibas, não te posso esconder, ainda há uma luz fina sobre tudo isto. Tudo se resume a esta luz fina a recordar-me todo o silêncio desse silêncio que calaste. Pai. Quero que saibas, cresce uma luz fina sobre mim que sou sombra, luz fina a recortar-me de mim, ténue, sombra apenas. Não te posso esconder, depois de ti, ainda há tudo isto, toda esta sombra e o silêncio e a luz fina que agora és."

Poema de José Luís Peixoto. Partilhado por Luís Belo.
“ Poema que explica a morte
Para o Valter Hugo Lemos, fardo que carrego

Três vezes seguidas um homem se sentiu morrer, por cada ocasião em que perdeu o amor. Depois, morrendo deveras, o homem sentiu pouco. Apenas que voltava a um lugar conhecido ou que, mais certo desistia de morrer novamente.”

Texto de Valter Hugo Mãe. Partilhado anonimamente.
"na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco."

Poema de José Luís Peixoto, partilhado por Luís Belo.
"As tuas mãos eram ásperas, acinzentadas, magras e cruas… como tu! Eram mãos de fazer coisas. Sentavas-te ao canto da sala, no sofá verde, manta de mil cores, por ti tricotada, no regaço e falavas. E enquanto falavas as tuas mãos nunca paravam de fazer coisas. Evocavas para mim todos os mortos e vivos que nunca conhecera, a fome durante a segunda Guerra Mundial, os bons costumes do Estado Novo, a perdição que foi o 25 de Abril. Na tua voz revisitava a história ao contrário, ao contrário do que foi e de tudo aquilo em que acredito, mas parava a escutar e aprendia sobretudo a aprender.
Fazes falta. O sofá verde está baço sem ti, os xailes trapalhões que usavas abandonados na cadeira do quarto, sobra o teu cheiro pela casa que nunca vai deixar de ser tua. Faltas tu.
Sem ti a família é apenas árvore genealógica a revisitar em dias previamente calendarizados. Sem ti há paz.
Às vezes rezo. Sei de cor a vida dos santos em que não acredito, o contorno das igrejas onde eras visita diária… e rezo. Rezo a um Deus em que não acredito, mas de quem eras intima. Rezo a ti. E choro.
É irremediável a distância para quem não acredita no reencontro e fazes falta. Ensinaste-me a costurar, cozinhar e ser uma menina crente e obediente. Só aprendi metade das lições. Ensinaste-me que as mulheres são rochedo, em qualquer tempo, em qualquer época, ensinaste-me a ser forte sendo frágil.
Partiste. Deposito flores sobre a areia enlameada do teu túmulo por tratar. É agreste a terra em que nada cresce, o silêncio que não é de paz, a ausência de ti."

Partilhado por Liliana Castilho