" O homem dobrou o tronco, apanhou uma folha do chão e ergueu-a em frente aos olhos. Observou-a por um momento e sorriu. Um sorriso aberto, franco, como se visse na folha algo de extraordinário, algo que o fazia imensamente feliz. Ao fim de uns minutos, deixou-a cair, baixou-se e apanhou outra. Voltou a sorrir. Havia meia hora que eu observava esta peculiar rotina. Talvez fosse um biólogo ou algum estudioso da natureza mas a verdade é que a sua indumentária sugeria... outra coisa.
Era negro, embora a pele não fosse muito escura; talvez fosse mulato, ou talvez nem fosse africano. Tinha uma barba comprida e um cabelo enorme, todo encarapinhado, que não devia ter visto a água desde o dilúvio original. A testa estava cingida por um lenço de cor incerta do qual o cabelo emergia em cascatas lembrando uma palmeira. Para cobrir o corpo, apenas umas calças pretas cobertas de nódoas e uma gabardina rasgada. Os pés desapareciam numa confusão de tiras de tecido, cordéis e fita isoladora.
Estávamos os dois num jardim público à sombra de um plátano, se não milenar, certamente secular; ele sentado num banco, eu noutro do lado oposto; ele a brincar com as folhas, eu a tentar ler um livro. Gosto de vir aqui. É um jardim pequeno, meia dúzia de bancos de madeira, muitas árvores diferentes; mas, principalmente, fica a dois passos da universidade onde lecciono, o que me permite aproveitar os intervalos entre as aulas para saborear um pouco de paz e pôr as leituras em dia.
Só que hoje não conseguia passar da mesma página. Tentava fixar os olhos no livro e eles acabavam por derivar para o homem. Não era tanto o que ele fazia com as folhas, era sobretudo a sua expressão que me fascinava; uma expressão radiante, como uma criança que descobre um brinquedo novo. Acabei por encolher os ombros. Mais um pobre coitado que anda a arrastar a sua miséria pelos bancos dos jardins. Uns falam sozinhos, outros com os postes, este brinca com as folhas."


Texto de Yves Robert. Partilhado por Ana Macário.

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