"Hoje quero construir os gestos
Que ainda não habituámos a consentir
Porque
Somos ambos possuídos de sílabas
Ainda inexistentes
É como se as minhas mãos traçassem geometricamente
As coordenadas que prolongam o hábito
Dos meus olhos te realizarem na minha frente
Precisamente sentada na cadeira em frente.
Poderia, no eixo das abcissas
Marcar a distância que nos separa das palavras
E no das ordenadas
Marcar as imagens
Que pretendemos povoar
Quando as raízes se desenvolvem pelas tardes.
Traçaríamos a curva da variação
Mas sem limites
Ou então
Até esse ponto onde as pessoas acreditam
Que afinal
Não é preciso matemática, nem geografia
Para se amarem:
Hoje poderias estar na minha frente
Do outro lado da mesa
(Para quê a mesa
Se ambos detestamos fronteiras?)
E olhar-mo-nos
Indefinidamente
Até estrangularmos os relógios
Nas caras das mulheres que reparassem em nós
Depois soprava-te os olhos
Cantaria para ti um poema
Onde não coubessem crianças nem lírios
E em seguida
Inventava um rio
Que se dissolvesse nos nossos corpos
E nos levasse até ao mar:
(Mas afinal que faço eu
Sentado aqui sozinho à mesa?)"

Partilhado anonimamente.

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