"As tuas mãos eram ásperas, acinzentadas, magras e cruas… como tu! Eram mãos de fazer coisas. Sentavas-te ao canto da sala, no sofá verde, manta de mil cores, por ti tricotada, no regaço e falavas. E enquanto falavas as tuas mãos nunca paravam de fazer coisas. Evocavas para mim todos os mortos e vivos que nunca conhecera, a fome durante a segunda Guerra Mundial, os bons costumes do Estado Novo, a perdição que foi o 25 de Abril. Na tua voz revisitava a história ao contrário, ao contrário do que foi e de tudo aquilo em que acredito, mas parava a escutar e aprendia sobretudo a aprender.
Fazes falta. O sofá verde está baço sem ti, os xailes trapalhões que usavas abandonados na cadeira do quarto, sobra o teu cheiro pela casa que nunca vai deixar de ser tua. Faltas tu.
Sem ti a família é apenas árvore genealógica a revisitar em dias previamente calendarizados. Sem ti há paz.
Às vezes rezo. Sei de cor a vida dos santos em que não acredito, o contorno das igrejas onde eras visita diária… e rezo. Rezo a um Deus em que não acredito, mas de quem eras intima. Rezo a ti. E choro.
É irremediável a distância para quem não acredita no reencontro e fazes falta. Ensinaste-me a costurar, cozinhar e ser uma menina crente e obediente. Só aprendi metade das lições. Ensinaste-me que as mulheres são rochedo, em qualquer tempo, em qualquer época, ensinaste-me a ser forte sendo frágil.
Partiste. Deposito flores sobre a areia enlameada do teu túmulo por tratar. É agreste a terra em que nada cresce, o silêncio que não é de paz, a ausência de ti."

Partilhado por Liliana Castilho

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